A Fundação

Fundação Parque do Flamengo 

A fim de preservar o projeto original do Parque, que não previa construções, estátuas, ou qualquer obstrução à vista dos pedestres, Lotta defende a criação da Fundação Parque do Flamengo, órgão previsto no processo de tombamento do Parque, e que teria autonomia administrativa. Ela argumenta sobre a necessidade da Fundação, não como um requinte, ou perfeccionismo, mas como condição de que a obra ficaria pronta após 1965, o que justificaria os gastos vultosos do projeto:

“É a garantia de que um projeto que foi planejado para funcionar como uma unidade não venha a se arruinar com o desmembramento dele. É a obrigação do Governo de garantir-lhe esta unidade, justificando os bilhões gastos nele, assegurando ao povo que o tempo das leviandades já passou, que as promessas feitas a ele são para valer.”

A necessidade da criação de um órgão exclusivo para a administração do Parque do Flamengo foi levada pelo governador Carlos Lacerda à discussão na Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara, onde o pleito sofria grande resistência. Lotta não estava satisfeita com a atuação do governador na defesa dos interesses do parque e se dirigia a ele de maneira direta, não amenizava seus sentimentos, indignando-se e exigindo que ele agisse. Enfatizava que os interesses em salvar o projeto e mantê-lo de acordo com as características previstas pelo Grupo de Trabalho, eram de total competência dele, sendo ele o indicado a defendê-lo:

“Não tem o menor cabimento, que eu passe estes últimos meses, negligenciando o meu trabalho, tentando angustiosamente, sem meios, tempo, e talento organizar um ‘movimento de opinião’ para salvar o Parque. Não tenha a ingenuidade de pensar que este bilhete, é para convencê-lo de mudar de ideia e entrar em acordo com a Assembleia por causa da Fundação – você não precisa de conselhos, porque faz isto muito bem, quando o caso lhe interessa. É só para que você saiba que amizade não é sinônimo de burrice, e que o considero totalmente responsável pelo sucesso ou fracasso da lei sobre a Fundação, na Assembleia.”

A partir de setembro de 1965, durante a campanha eleitoral para a disputa do Governo da Guanabara, os problemas tomaram dimensões incalculáveis e Lotta se desgastava física e emocionalmente. As opiniões divergentes em relação às obras do Parque eram muitas. Alguns consideravam a obra desnecessária e custosa para o Governo, outros apoiavam sua conclusão. A resistência à criação da Fundação foi maior do que o esperado e o projeto  foi derrotado na Assembleia.

Prevendo a possibilidade da derrota do seu candidato, o Governador Carlos Lacerda sancionou uma lei criando a Fundação à revelia das decisões tomadas pelos deputados na Assembleia. Não bastassem os problemas com a implantação da Fundação, nesse mesmo momento começam os conflitos entre Lotta e o paisagista Roberto Burle Marx por questões relacionadas às obras do Parque. Os jornais deram ampla cobertura aos argumentos do paisagista que acusava Lotta de exercer a presidência do Grupo de Trabalho de forma autoritária e prepotente. Um mal entendido profissional entre duas personalidades da elite carioca que disputavam, provavelmente, os sucessos e os infortúnios relativos ao projeto do Parque do Flamengo, foi publicamente exposto por Burle Marx.

Com a vitória de Negrão de Lima, candidato da oposição, foi aprovado um projeto de lei que criava um órgão autônomo para administrar todos os parques e jardins da cidade. Após muitas discussões e Mandados de Segurança que tramitavam nos órgãos competentes, a Fundação do Parque do Flamengo foi definitivamente extinta e sua administração e conservação ficaram a cargo da SURSAN, passando posteriormente para o Departamento de Parques e, mais tarde, ao Departamento de Monumentos e Chafarizes. Atualmente, está sob responsabilidade da Fundação Parques e Jardins, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

Ainda assim Lotta tentava manter os trabalhos e concluir as obras. Sua amiga Elsie Lessa comentou que ela andava com as pastas do Parque debaixo do braço como um bem precioso, o qual teimava em defender até o fim. Ela foi uma das últimas pessoas a estar em companhia de Lotta antes do seu embarque para Nova York em setembro de 1967:

“Ficou umas três horas sentada ali naquela poltrona de couro, folheando a sua pasta sobre a Fundação daquele aterro dos seus sonhos, que lhe encheu de alegria e desgostos os últimos anos de vida. Comeu-lhe os nervos, degustou-lhe as energias físicas e psíquicas. Era a última coisa que queria fazer pelo seu “Aterro do Flamengo”, a Fundação que lhe garantisse a existência desimpedida dos entraves burocráticos, para que florescessem e frutificassem afinal todos os seus sonhos. Por duas vezes vi-a botar a mão diante do rosto e soluçar por ele nessa tarde. Acabara de entregar a grande pasta de recortes que acompanhara o processo de defesa da Fundação do Aterro, já em mãos do Supremo Tribunal Federal. E era, a última coisa que fazia por ele.”

A especialista em recreação Ethel Bauzer Medeiros, que trabalhou no projeto do Parque junto com Lotta, afirmou que:

“Entre os objetivos da criação da Fundação do Parque estava o direcionamento das atividades a serem desenvolvidas nele. O projeto previa a contratação de profissionais especializados, pois ele não foi projetado para ser apenas um local para os frequentadores darem vazão às suas tensões acumuladas no dia-a-dia.”

Continua ela:

“Seu propósito era mais amplo, qual seja, o de contribuir para melhorar a qualidade da vida atuando como fonte de educação permanente ou de educação continuada. Este objetivo não pode ser alcançado, pois a Fundação não conseguiu efetuar-se.”

 

 


Veja, clicando nos links abaixo, o conteúdo da Grande Pasta de Recortes sobre a Fundação Parque do Flamengo que Lotta montou para o Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara.


Grupo de Trabalho - Barracão - 1965

Funcionários do Barracão: em pé da esquerda para a direita estão Juan Delis Scarpellini Ortega (arquiteto), Júlio César Pessolani Zavala (arquiteto), Dona Lotta, Olívio (copeiro), Sérgio Rodrigues e Silva (arquiteto), Swany (secretária) e David (motorista do trenzinho). Agachados: Gelse Paciello da Motta (arquiteto), Marcílio Pereira (jardineiro) e Fernanda Noviz Oliveira (secretária).

Lotta na posse como Diretora da Fundação Parque do Flamengo - 26nov65

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