O Projeto

Nos anos 1950, época em que se iniciou o Aterrado Glória-Flamengo, base para a implementação do Parque, o aumento da densidade populacional e o boom imobiliário nos bairros oceânicos da cidade, geraram a necessidade de renovar sua infraestrutura física, próxima do colapso, devido ao comprometimento da costa, do sistema viário e da acessibilidade ao centro da cidade, zonas sul e norte.  

A urbanização dessa área conquistada ao mar teve como objetivo articular e melhorar o tráfego entre as Zona Sul, Centro e Norte, juntamente com o desmonte do Morro de Santo Antônio, a Av. Perimetral e o Túnel Rebouças. Desde o Plano Agache (1927-1930), no qual Affonso Eduardo Reidy, ainda estudante de arquitetura, trabalhou como assistente de Agache na elaboração do Plano Diretor da Cidade, as soluções urbanísticas para essa área já vinham sendo maturadas.

Em 1948, já como diretor do Departamento de Urbanismo da Prefeitura do Distrito Federal, Reidy abordou pela primeira vez a urbanização do aterrado Glória-Flamengo, propondo para a área um parque. Essa proposta, inspirada no conceito de Cidade Radiosa de Le Corbusier – uma cidade imersa em jardins e no verde -, foi mantida por ele durante anos, motivando várias discussões suas com a administração municipal.

Em 1949, ele modificou o projeto para a urbanização da área, propondo uma série de arranha-céus próximos ao mar. Acabou abandonando a ideia por ser considerada inviável, pois construir na orla não resolvia a questão da ligação entres as Zonas Sul, Centro e Norte, nem possibilitava a criação de uma grande área verde, um parque.        

Essa ideia de criar um pulmão natural para a cidade, que saneasse seus problemas ambientais e, ao mesmo tempo, funcionasse como um parque ativo, destinado às grandes massas e que fosse o mais moderno espaço da cidade, eram partes importantes do projeto de Reidy. Ele as retomou em 1953, quando desenvolveu o anteprojeto para o Museu de Arte Moderna.

Em 1961, quando o governador Carlos Lacerda criou o Grupo de Trabalho, com a função de coordenar o projeto do Parque do Flamengo, Reidy foi convidado por Lotta de Macedo Soares, presidente do grupo, para elaborar o projeto para a área do aterrado. Materializou-se, então, a oportunidade para o desenvolvimento das ideias pensadas para o anteprojeto do MAM. No projeto do parque, os principais elementos estruturadores foram o sistema viário e o paisagismo. O pensamento objetivou criar uma nova paisagem e democratizar os espaços públicos.

A complexidade da área onde se instalou o parque derivou do fato de ser o único enlace direto entre a Zona Sul e o CCntro do Rio. O grande desafio do projeto foi, portanto, o de conceber um parque como parte de um circuito que organizasse o trânsito de veículos entre a Zona Sul e o Centro sem que perdesse sua identidade como parque. Além disso, ele deveria integrar importantes equipamentos urbanos já realizados separadamente como o Aeroporto Santos Dumont, o Museu de Arte Moderna e o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. 

O projeto da SURSAN propunha o estabelecimento de quatro pistas de alta velocidade, das quais duas já estavam em construção. O elaborado por Reidy e o Grupo de Trabalho estabeleceu duas e foi o que prevaleceu. A construção das pistas significou não apenas a possibilidade de ligação entre o Centro, a Zona Norte e a Zona Sul, mas, também, a acessibilidade aos equipamentos já construídos e à toda a população da cidade.

No projeto aprovado, a primeira faixa está situada entre a parte edificada dos bairros da Glória e do Flamengo e as pistas de velocidade. Nela estão localizados os estacionamentos, os campos de pelada e os playgrounds. Os estacionamentos foram aí colocados para estimular os usuários a caminhar. A segunda é constituída pelas pistas de velocidade e jardins centrais, projetados com uma perspectiva profunda para serem vistos a partir dos carros e a grande velocidade. Na terceira faixa, que margeia a baía, estão localizadas as quadras de esporte, os equipamentos de lazer, a praia, a antiga pista do trenzinho – hoje usada como ciclovia -, o Coreto Estrela, a Pista de Dança, o Tanque de Nautimodelismo, o museu e monumentos, restaurante, banheiros, marina, postos de salvamento e as atividades associadas. A comunicação entre as faixas é feita por passarelas e passagens subterrâneas, onde também foram instalados banheiros.

No desenho do Parque do Flamengo, Reidy se apropriou das formas da natureza e da paisagem da cidade. Dele constam: uma onda, formada pela curva quase em espiral da ponta da enseada e o traçado das pistas; o perfil de um peixe, pelo espigão de pedras e a faixa de areia da praia que representam, simultaneamente, a nadadeira dorsal, o mastro e a vela de um barco, que aparece, parcialmente, por detrás do peixe; o aquário circular previsto para a ponta da enseada, ainda não implantado, o olho do peixe, sendo os canteiros do jardim do Bosque as escamas; o trevo de quatro folhas com caule, ramos e raízes formados pelas vias expressas e suas transversais, o Trevo do Estudante; a forma de estrela, o Coreto; a estrutura de uma concha, a Pista de Dança; ou o tubo de ondas, a cobertura do Pavilhão Japonês. Essas representações não são percebidas de perto, já que o desenho do parque é um traçado horizontal de uma grande área. Somente através da observação da Planta Geral ou de fotografias aéreas elas podem ser visualizadas.

Por tudo isso, o Parque do Flamengo não se constituiu em mais um espaço de lazer destinado a uma parcela limitada e localizada da população, mas sim, um parque em escala compatível a uma grande metrópole cosmopolita. Para Lotta, ele estava destinado a contribuir para a melhoria da qualidade de vida, conter a ofensiva da especulação imobiliária e possibilitar a reconciliação dos cidadãos com sua cidade. Por esses motivos é que ele foi tombado antes mesmo de concluído, façanha até então inédita. Sua criação significou a construção de uma nova paisagem em um espaço de grandes dimensões, de uma plasticidade vigorosa, moderna e de conformação precisa. Buscou refletir a amplitude da geografia da Baía de Guanabara, materializando a imagem de um ambiente tropical urbanizado. Nele, a natureza e a técnica formaram um binômio perfeito. Como espaço social e educativo, articulou signos que representavam um sonho de ordem social sem precedentes em escala urbana.

Referências

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.136/4048

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.079/288

http://www.archdaily.com.br/br/776776/uma-arquitetura-para-a-cidade-a-obra-de-affonso-eduardo-reidy

Periódicos

Penido desmente que tenha havido desentendimentos com ele e Dona Carlota. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10/02/1966, pag. 14.

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