Parque Carlos Lacerda

O Parque Carlos Lacerda ocupa cerca de 80% da área do Complexo do Parque do Flamengo. Criado pela Lei nº 1.219, de 11 de abril de 1988, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que dividiu o complexo em dois, o novo parque abrange o trecho compreendido entre o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial e o final dos jardins situados ao longo da Praia de Botafogo.

Concentra a maioria dos equipamentos do complexo, como a Marina da Glória, as Pistas de Aeromodelismo, o Teatro de Arena, o Coreto Estrela, as Quadras de Pelada, o Recreio Infantil Lotta Macedo Soares, o Teatro de Marionetes, a churrascaria Assador Rio’s, o Monumento a Estácio de Sá, a Praça Cuauhtémoc, a Praia e a totalidade das áreas para a prática de esportes variados.

Seu nome é uma homenagem ao seu construtor, Carlos Frederico de Werneck Lacerda. Eleito em 1960, primeiro governador do recém criado Estado da Guanabara, Carlos Lacerda nasceu na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, mas foi registrado como tendo nascido em Vassouras, em 30 de abril de 1914.

Lacerda iniciou sua carreira profissional em 1929, escrevendo artigos para o Diário de Notícias. Em 1932 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, abandonando o curso em 1934. Durante seu período acadêmico, destacou-se como orador e participou, ativamente, do movimento estudantil de esquerda no Centro Acadêmico Cândido de Oliveira-CACO. Participou do grupo articulador da Aliança Nacional Libertadora-ANL, organização comunista fundada em 1935 com o caráter de “frente popular”, cujo programa, baseado na mobilização das massas, propunha a luta contra o integralismo, o imperialismo e o latifúndio.

Em 10 de novembro de 1937, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, foi deflagrado o golpe que determinou o fechamento do Congresso Nacional e a abolição de todos os partidos políticos no país, instaurando o Estado Novo. Na ocasião Lacerda encontrava-se preso na Polícia Central, sendo posto em liberdade poucos dias depois por insuficiência de provas. A partir de 1938 dedicou-se às atividades jornalísticas. Dizendo considerar que a doutrina comunista “levaria a uma ditadura, pior do que as outras, porque muito mais organizada, e, portanto, muito mais difícil de derrubar”, rompeu com o movimento em 1939.

No início de 1945, Lacerda começou a trabalhar como free-lancer no Correio da Manhã, onde criou, em 1946, a seção intitulada “Na tribuna da imprensa”. Em 1947 foi eleito vereador pelo Distrito Federal na legenda da União Democrática Nacional (UDN). Em 1949 foi afastado do Correio da Manhã. Conservando, no entanto, o direito de usar o título de sua coluna, decidiu lançar um novo jornal com esse nome. Assim, em dezembro de 1949, fundou a Tribuna da Imprensa que, representando as principais propostas da UDN, viria a fazer oposição às forças políticas vinculadas ao getulismo.

A situação política se agravou quando, na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, Lacerda foi alvejado na porta de sua casa, à rua Toneleros, em Copacabana. O atentado que se tornou conhecido como Atentado da Toneleros, resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que dava proteção a Lacerda, que escapou com um ferimento no pé. Ainda no hospital, Lacerda acusou os homens do Palácio do Catete, sede do poder executivo, como mandantes do crime.

Lacerda lançou, no dia 12, um editorial na Tribuna da Imprensa exortando as forças armadas a exigirem a renúncia de Vargas. Com a confirmação do envolvimento da guarda pessoal do presidente no atentado, a oposição intensificou sua campanha. No dia 22 a exigência da renúncia de Vargas começou a generalizar-se nos meios militares. Isolado politicamente e na iminência de ser deposto, Vargas suicidou-se no dia 24 de agosto de 1954. O suicídio reverteu a opinião pública e provocou uma imensa onda de comoção e revolta. Lacerda e parte de seu grupo foram obrigados, temporariamente, a deixarem o país.

Em 4 de janeiro de 1955, em artigo publicado na Tribuna de Imprensa, Lacerda reconheceu as divergências existentes no interior das forças armadas e defendeu a interferência dos militares na vida política do país. No dia 10 de fevereiro deste mesmo ano, apesar da oposição dos udenistas e dos setores militares a eles vinculados, o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek teve sua candidatura homologada pelo PSD, vencendo as eleições presidenciais.

Lacerda defendia a interdição da posse dos eleitos e pedia insistentemente a intervenção dos militares na política nacional. Doente, o então presidente Café Filho, transmitiu o governo a Carlos Luz. No dia seguinte Lacerda assinou mais um violento artigo intitulado “Não podem tomar posse”, no qual afirmava que Carlos Luz não assumiria o governo para preparar a posse de Juscelino e Goulart.

Na madrugada de 11 de novembro a capital federal foi ocupada por tropas do Exército e o comando das operações militares centralizado no Ministério da Guerra, sob a chefia do general Henrique Teixeira Lott. O jornal Tribuna da Imprensa e a sede do Clube da Lanterna foram sitiados e, aos poucos, todas as unidades do Exército foram-se posicionando a favor de Lott.

Refletindo a posição de Lott e dos chefes militares comprometidos com a posse de Juscelino e Goulart, o Congresso aprovou pouco mais tarde o impedimento de Carlos Luz dando posse na presidência da República a Nereu Ramos, vice-presidente do Senado e elemento seguinte na ordem legal de sucessão.

Lacerda, aconselhado por seus companheiros, asilou-se na embaixada de Cuba. Com a interferência do Itamarati, recebeu salvo conduto do embaixador cubano no Brasil e embarcou para Cuba. Em seguida partiu para os Estados Unidos, onde se fixou junto com a família. Durante sua estada da América trabalhou como correspondente da Tribuna da Imprensa e colaborou também com os jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Em meados de 1956 transferiu-se para Lisboa.

No dia 11 de novembro de 1956 Lacerda retornou ao Brasil, sendo recebido na cidade do Rio de Janeiro por grande manifestação popular. Logo em seguida reassumiu o mandato de deputado federal e a direção da Tribuna da Imprensa, dando início, de imediato, aos ataques ao governo de Juscelino Kubitschek.

Em artigos publicados na Tribuna da Imprensa em 1959, desenvolveu intensa campanha em apoio à candidatura do ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, à presidência da República nas eleições fixadas para outubro do ano seguinte. Lacerda participou de forma intensa da campanha eleitoral de Jânio, já que estava preocupado em articular sua própria candidatura ao governo do estado da Guanabara.

Em 5 de dezembro de 1960 foi empossado como primeiro governador do recém-criado estado da Guanabara, iniciando de imediato a execução de uma ampla reforma administrativa. Logo nos primeiros meses do governo Jânio Quadros, as divergências entre Lacerda e o presidente se explicitaram. Na liderança da ala radical da UDN carioca, o governador da Guanabara foi se distanciando cada vez mais dos setores liberais do partido, que tendiam a apoiar o presidente, e desencadeou uma violenta campanha de teor anticomunista nos jornais Tribuna da Imprensa e O Globo. Em outubro de 1961, já sob a presidência de João Goulart, em consequência de dificuldades financeiras Lacerda vendeu a Tribuna da Imprensa.

Em 31 de março de 1964 foi deflagrado o movimento político-militar que derrubou o presidente Goulart. No dia 8 de abril Lacerda participou de uma reunião com Costa e Silva em que se decidiu o apoio à candidatura do general Castelo Branco à presidência da República. Em maio seguiu para a Europa em viagem oficial para divulgar os objetivos do novo regime. Seu apoio ao governo Castelo Branco, todavia, durou pouco. Alijados das principais decisões políticas, Lacerda e seus adeptos da UDN foram se desligando progressivamente do projeto político-militar que por muitos anos haviam defendido.

A suspensão das eleições diretas para a presidência da República, colocou um ponto final nas pretensões de Lacerda que, frustrado com o rumo dos acontecimentos, afastou-se do governo do estado da Guanabara em 4 de novembro de 1965.

Inconformado com a situação política do país Lacerda articula o lançamento, junto com Juscelino Kubitschek e João Goulart, da Frente Ampla. Desconfiando que o principal objetivo da Frente era o de minar a aprovação do nome de Costa e Silva pelo Congresso, os militares da “linha dura” ameaçaram retirar a cobertura que sempre haviam dado a Lacerda, caso ele prosseguisse na tentativa de acordo com os “banidos pela Revolução “.

Desafiando o aviso que recebera, em 28 de outubro de 1966, a Frente Ampla foi lançada com um manifesto dirigido ao povo Brasileiro publicado na Tribuna da Imprensa. Os militares proíbem todas as atividades da nova sigla e editam o Ato Institucional nº 5, conhecido como AI-5. No dia seguinte Lacerda foi preso e, após uma semana em greve de fome, conseguiu ser libertado. Em 30 de dezembro teve os direitos políticos suspensos por dez anos.

No início de 1969 viajou para a Europa, e em maio seguiu para a África como enviado especial de O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde. De volta ao Brasil, dedicou-se às atividades empresariais nas companhias Crédito Novo Rio e Construtora Novo Rio, e às atividades editoriais na Nova Fronteira e Nova Aguillar, todas empresas de sua propriedade. Colaborou ainda em O Estado de São Paulo e no Jornal do Brasil sob o pseudônimo de Júlio Tavares. Faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1977.

Lacerda amava o Parque e certamente iria gostar muito se todo ele se chamasse Parque Lotta Macedo Soares, mas motivada pelo seu falecimento a Sociedade de Amigos de Carlos Lacerda, presidida naquela ocasião por Mauro Magalhães, promoveu através do Vereador Américo Camargo a aprovação da Lei nº 1219/88.


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